Bailarina, arte-educadora e escrevedora. Arteira. Devoro fartos banquetes de boas palavras e salpico com parte delas o aperitivo noturno servido por aqui.
Idéias livres, espírito inquieto e contos mal contados. Palavras soltas ao vento ou voando amarradas em pseudo-poesia. Nenhuma convicção.
A possibilidade de ver todo e qualquer pensamento transformado a qualquer momento. O encantamento. As esperanças. O flerte da felicidade plena com o desespero e a escuridão.
Aqui, tudo é rascunho.
Sirva-se à vontade!
Acrescente sal ou pimenta, se desejar.



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Segunda-feira, Junho 29, 2009

AMAR-ELO

é tudo fora
tudo fim
não o sim – afinal
insensata realidade desvelada

Déa Paulino [12:04 AM]
Fala que eu te escuto:

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Quinta-feira, Junho 25, 2009

SUBLINHAMENTOS
Das sutilezas quase sempre imperceptíveis
Sem comprometer, né, Jakqmonk? ;)
Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original – há pouco eu falava de “experiência fundadora”: a experiência da insegurança. A natureza desta não era a mesma para você e para mim. Não importa: para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós.

André Gorz, excerto do livro Carta a D.

Déa Paulino [12:59 AM]
Fala que eu te escuto:

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Domingo, Junho 21, 2009

CONTRACAPA

Não foi por seu característico olhar de soslaio que o identificou; guardava dele a devida distância, posto que, ofegante, caminhava às suas costas. As delicadas mãos de dedos alongados e o sorriso terno tampouco distinguiam-no. Eram dele os cabelos ainda emaranhados aos seus.
Sabendo-o espelho e distante extensão de si, compreendeu-o em toda a sua inteireza. À sua frente, mantinha os passos leves e firmes de que, vez por outra, espocavam faíscas e luzes cada vez mais fracas; pequenos rastros da rara felicidade recém-experimentada por aquela que, ao amargo sabor da sorte, ignorava o futuro revelado pela mais científica das cartomantes.
Aproximando-se, sob a densa madrugada ainda nebulosa, adivinhava-o ainda calmo. Sólido e definitivo. Ia de encontro àquele que, agora alcançado, sabia-se um triste ponto final.

Déa Paulino [2:43 AM]
Fala que eu te escuto:

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Sexta-feira, Junho 12, 2009

SEIS ANOS

Aos que aqui estão, aos que voltam sempre, aos que aparecem de vez em quando, aos que encontraram por acaso, aos que se decepcionam, aos que acrescentam, aos que discordam, aos que somam, aos que se foram, aos insensíveis, aos que acreditam, aos que comentam, aos homenageados, aos amigos, aos desafetos, aos incompreendidos, aos que riem, aos que incentivam, aos que amam, aos que repreendem, aos que ensinam, aos que compartilham... agradeço.
Ter um blog é um exercício de exibicionismo, ou de anti-egoísmo. Como durante os últimos seis anos descobri que gosto de boas companhias, tenho tentado a segunda opção.

Déa Paulino [6:06 PM]
Fala que eu te escuto:

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Segunda-feira, Junho 08, 2009

Sofria, sobretudo, com a impermanência, que considerava mais um entre tantos outros males. Desdenhava da amplitude do céu, tão vago, em detrimento da estrela mais brilhante, que observava permanentemente alta; ponto único entre tantos outros na abóbada sob a qual convencionou-se viver.
Absorta em insistentes pensamentos grandiosos e improváveis possibilidades infinitas, esquecia-se de que também para as estrelas o tempo passa. Também para elas, um dia, tudo terminará. Como tudo o que é vivo, ela e as estrelas, tudo, fenece. Breve ou em um futuro distante, também sua obra terá fim.
Espantada, sabe-se também ar. E porque é feita de breves sopros desconcertantes, obedece.
Vaga ao sabor dos ventos transformando em beleza os suspiros apreendidos. Torna-se movimento, luz, palavras e cores. Sobrevive ao presente, hoje. Por isso está aqui.

Déa Paulino [8:54 PM]
Fala que eu te escuto:

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Domingo, Maio 31, 2009

MARIA

Belo ébano farto e exalante, lavava pratos e copos, aos prantos. Sentia acelerada a dissolução dos seus vestígios de alma, depois de submeter-se a inúmeras e consecutivas humilhações.
Imersa em maus pensamentos e exposta ao sol quente que atravessava a limpidez da vidraça, quebrou a recém-chegada travessa de frutas colorida. Com as mãos ainda trêmulas, desconcertou-se em espasmos e lágrimas misturadas aos suores cada vez mais quentes que encharcavam o vestido amarelecido.
Arrebatada pelo desespero, recolheu todos os cacos e, sentindo o vidro romper a pouca resistência da carne, deleitou-se ao friccioná-lo com força entre a brancura das mãos.
Sorria ao ver a água corrente misturando-se ao denso carmim e, pela imundície gordurosa do ralo, esvair-se a genética também por ela execrada. Seus grandes olhos negros brilharam áridos quando, corpulenta e sem vida, pela última vez, inspirou.

Déa Paulino [8:05 PM]
Fala que eu te escuto:

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